Financial Times elogia Lula e critica Bush
Um
dos principais porta-vozes do capitalismo internacional, o jornal britânico
Financial Times começa a considerar como reais as chances de Luiz Inácio Lula
da Silva (PT) vencer as eleições presidenciais brasileiras em outubro. Em
reportagem publicada ontem, o diário econômico analisa a evolução política
do candidato e de seu partido. Segundo a reportagem, Lula amenizou não apenas a
sua aparência como várias de suas propostas econômicas, e deixou de lado a
agressiva retórica anticapitalista.
O jornal cita recentes pesquisas de intenção de voto nas quais o candidato do
PT tem 43% da preferência dos eleitores. ‘‘A verdade é que uma Presidência
petista está hoje mais próxima do que nunca da realidade. Poucos eleitores
hoje rejeitam inteiramente o nome de Lula’’, reconhece o jornal. O FT lembra
a queda no índice de rejeição do candidato de 45%, em 1994, para 23%, em
2002, de acordo com o Instituto Vox Populi.
‘‘ No entanto, apesar da recente moderação de Lula, os mercados estão
tensos como se ele ainda pregasse a revolução’’, afirma o FT. Desde meados
do mês passado, o real perdeu aproximadamente 10% de seu valor em comparação
ao dólar, e os títulos brasileiros negociados em mercados internacionais
sofreram desvalorização.
No início de maio, quando Lula começou a subir nas pesquisas e provocar
nervosismo nos mercados, o mesmo FT considerou exagerada a reação dos
investidores estrangeiros aos índices de aprovação do petista. Na época, o
editorial do jornal afirmava que ainda não eram reais as chances da oposição
vencer. Também apostava na subida do candidato governista, do PSDB, José Serra,
depois das primeiras propagandas na TV.
As denúncias de corrupção contra o ex-tesoureiro da campanha de Serra ao
Senado em 1994, Ricardo Sérgio, fizeram o candidato governista despencar.
Segundo o FT de ontem, Lula enfrentou em 1994 e em 1998, um carismático
Fernando Henrique Cardoso, impulsionado pelo sucesso do Plano Real. ‘‘O
candidato José Serra não tem feitos similares em que possa se apoiar.’’
Diante da evolução do cenário eleitoral, o FT mudou completamente o tom em
editorial publicado ontem. O periódico britânico alertou os Estados Unidos
para a desintegração do apoio às reformas pró-mercado na América Latina.
Inicialmente, sem citar nomes, o texto fala de ‘‘líderes populistas que
ganham espaço em vários países’’.
Mais adiante, o diário afirma existir um medo dos investidores de Wall Street
de que essa tendência populista contagie o Brasil, maior economia da região.
‘‘Há temores que uma esquerda fraca e minoritária seja alçada ao poder
nas eleições gerais de outubro’’, revela o FT, já dando nome aos bois.
O texto responsabiliza a política protecionista norte-americana pela situação
ruim dos candidatos identificados com os governos na América Latina. A
sobretaxa na importação do aço e os incentivos à agricultura norte-americana
prejudicam nações como o Brasil e a Argentina. Isso mina os argumentos
daqueles que defenderam a liberalização econômica na região, na década de
90.
O novo PT
Na
matéria publicada ontem, entretanto, o periódico britânico pondera que existe
um reconhecimento dos investidores da mudança de postura do PT. O partido teria
adotado uma posição mais simpática em relação ao mercado financeiro.
Lula, por sua vez, teria abdicado de propostas radicais do passado como uma
moratória da dívida externa ou a estatização de partes da indústria
brasileira. ‘‘Ele agora defende algumas das políticas que foram elementares
para a estabilidade econômica, entre elas a disciplina fiscal, a definição de
metas inflacionárias e uma taxa de câmbio flutuante’’, observa o periódico
inglês.
O jornal também reconhece que hoje 25% dos brasileiros vivem em cidades e
estados administrados por governos do PT. ‘‘ Muitos governantes deram provas
de sua competência e alguns introduziram inovadores programas sociais’’,
elogia o FT. Na matéria, o diretor do Banco Fator, Walter Appel, afirma que o
partido não faria nenhuma ‘‘besteira’’, como um pedido de moratória da
dívida ou um corte drástico na taxa de juros.
O periódico britânico chega a enumerar possíveis vantagens de uma vitória da
oposição. Com o apoio de sindicatos e a necessária aliança no Congresso,
realizar mudanças como a reforma do sistema previdenciário.
Os críticos, entretanto, declaram que o PT não dispõe de experiência
suficiente para comandar a 10ªeconomia do mundo, ressalva o FT. Os detratores
do partido alegam que a guinada para o centro foi feita sem convicção. No
texto, o cientista político Bolívar Lamounier afirma que, ao contrário de
partidos da esquerda européia, o PT tem dificuldades para romper com seu
passado ideológico. ‘‘O PT é guiado por um idealismo vago, e acredita que
bastam as boas intenções. Seu principal problema é a ambigüidade’’. O
ex-governador Cristovam Buarque (PT-DF) concorda. ‘‘Somos prisioneiros do
nosso passado de confrontamento. Não bastam as palavras; precisamos agir para
tranqüilizar eleitores e investidores’’.
Artigo publicado pelo Jornal Correio Brasiliense no dia 25/05/2002.