Terrorismo econômico
A consolidação do candidato do PT à Presidência da
República, Luiz Inácio Lula da Silva, na liderança das pesquisas de intenção
de votos levou bancos norte-americanos a criarem um clima de terrorismo
eleitoral. Eles prevêem desastres econômicos no Brasil caso a vitória do
petista se confirme. O país voltou a ser comparado à Argentina, que está
mergulhada em profunda crise social. O Morgan Stanley e o Merrill Lynch — dois
dos maiores bancos de investimentos dos Estados Unidos, com forte presença na
América Latina — rebaixaram a classificação da dívida brasileira e
recomendaram a seus clientes que reduzam a compra de ações e papéis
brasileiros. Temem uma mudança radical na política econômica do país se a
oposição sair vitoriosa das urnas em outubro.
Em um documento assinado pelo economista Eric Fine, o Morgan Stanley
chegou a pedir desculpas à clientela que aplica no Brasil por ter, no dia 1º
de março, recomendado o aumento de posições no país. Naquela ocasião, o
banco e quase todo o mercado financeiro americano davam como certa a vitória do
candidato do PSDB, José Serra, em outubro. Agora, com o fraco desempenho do
tucano — ele caiu três pontos percentuais na pesquisa divulgada ontem pela
CNT/Sensus, de 19,1% para 16,1%, enquanto Lula subiu mais de quatro pontos, essa
certeza já não existe mais. A Merril Lynch também ressaltou essa advertência.
O Bank of America foi um pouco mais comedido. Mas nem por isso
deixou de criar tumulto no mercado. A instituição, que contratou o Ibope para
realizar pesquisas mensais sobre a opinião dos eleitores, previu que, ainda no
mês de maio, o candidato do PSB, Anthony Garotinho, deverá ultrapassar Serra
na preferência do eleitorado, embalado pelos programas do partido na televisão.
Ao mesmo tempo em que ressaltou aos clientes, especialmente aos estrangeiros, a
não se preocuparem com as pesquisas, o Bank of America sugeriu que um bom
caminho para se protegerem no caso de vitória da oposição seria aplicarem em
dólar. Ou seja, apostar contra o real.
A estratégia dos bancos norte-americanos foi muito bem aproveitada
pelo candidato do PSDB. Com a queda na pesquisa CNT/Sensus, Serra inverteu o que
seu partido sempre criticou no PT. Ele é quem agora aposta no quanto pior,
melhor. Durante participação em um debate promovido pela Força Sindical, em São
Paulo, José Serra afirmou que o Brasil pode, sim, se transformar na Argentina
caso o candidato da continuidade não vença as próximas eleições.
‘‘Dependendo do rumo que o Brasil adotar, podemos chegar numa situação
muito próxima à vivida hoje pela Argentina’’, frisou Serra. Essa declaração
ocorreu um dia depois de Fernando Henrique Cardoso ter dito, em cadeia nacional
de rádio e televisão, que o Brasil é uma ilha de estabilidade dentro da América
Latina.
Até mesmo o ministro da Fazenda, Pedro Malan, eterno desafeto do
tucano, contribuiu para apimentar as preocupações dos investidores no caso de
vitória da oposição. Ele afirmou que os problemas da Argentina já estão
afetando a economia brasileira.
O movimento orquestrado pelos bancos norte-americanos alertando
sobre ‘‘os riscos’’ da candidatura Lula foi rechaçado com veemência
pelo principal assessor econômico do PT, Guido Mantega. ‘‘Não há nenhuma
relação entre o crescimento de Lula nas pesquisas de intenção de votos e o
aumento do risco de se investir no Brasil’’, destacou.
Artigo publicado pelo Jornal Correio Brasiliense no dia 30/04/2002.