Entrevista de Lula a Globo News
Publicado pelo Jornal Estado de Sao Paulo, no dia 11.04.2002
São Paulo - O presidenciável Luiz Inácio Lula da Silva está cada vez mais distante da imagem que o marcou nas eleições de 89, 94 e 98, quando fracassou em suas tentativas de governar o País. Quem viu na noite passada sua entrevista no “Espaço Aberto Especial”, da Globo News, deparou-se com um Lula sorridente, confiante, tranqüilo e com respostas articuladas para as várias questões que lhe foram apresentadas pela jornalista Míriam Leitão, que entrevistara nas noites anteriores José Serra, o candidato tucano, e Ciro Gomes, da Frente Trabalhista (PPS, PTB e PDT). Roseana Sarney, do PFL, e Anthony Garotinho, do PSB, recusaram o convite para participar da série.
Eis algumas das respostas dadas pelo candidato petista às seguintes questões:
"O MST é uma organização da sociedade civil e não tem que pedir licença ao PT para nada, como a CUT não tem que pedir licença. Ou seja, eles deliberam, falam o que pensam e escrevem aquilo que eles bem entenderem. Da mesma forma como não queremos que o Movimento Sem Terra seja corrente de transmissão do PT, nós também não queremos ser corrente de transmissão deles. O que o PT propõe, na verdade, é fazer com que o programa para disputar uma eleição seja um programa democrático e popular. Eu já participei de dezena de reuniões com o Movimento Sem Terra, e em todas as reuniões eu ouvi, tanto da direção como da base, que o movimento não invade terras produtivas. O movimento tem que se organizar, tem que lutar, porque senão o governo não o ouve. Mas, num governo nosso, estou convencido de uma coisa, e eu vou dizer porque quero que você me cobre daqui a uns 14 meses: nós somos a única possibilidade de um dia fazer uma reforma agrária sem que haja uma morte e sem que haja uma ocupação."
"É preciso que eles (do MST) saibam que o País tem regras, tem leis, tem procedimentos. E todos nós precisamos estar subordinados a essas regras e procedimentos. Não existe espaço para radicalismo numa sociedade democrática. As pessoas podem radicalizar, dependendo de seus interesses, mas têm que saber que os interesses se chocam com os interesses de outros. E aí entra o papel do Estado, para tentar encontrar um meio termo e, numa grande acordo, fazer a reforma agrária tranqüila e pacífica que nós queremos fazer no Brasil."
"Para viver numa sociedade capitalista, as pessoas têm que ganhar o suficiente para comprar os produtos que eles próprios produzem, porque senão não existiria o sistema. O nosso programa é democrático e popular e a gente vai tentar superar e conquistar a cidadania para milhões de brasileiros."
"Nós temos de garantir que nenhuma criança fique fora da escola, de verdade. Segundo, nós temos que garantir que essa criança vá para a escola depois de comer as proteínas necessárias à inteligência e à sobrevivência humana. Terceiro, nós precisamos garantir que não haja evasão escolar, então a escola tem que ser de boa qualidade. Quarto, nós precisamos melhorar o ensino secundário e, concomitantemente, investir no ensino técnico. Nós precisamos quadruplicar o número de estudantes do ensino técnico. Ao invés de falar ´gastar´ com a educação, nós vamos usar a palavra ´investir´, porque educação é um investimento que tem retorno muito mais rápido do que o dinheiro que nós investimos no Proer."
"É preferível cobrar no imposto de renda (do pai) aquilo que (o filho) vai gastar na universidade. É melhor ter uma política tributária justa, para que essa pessoa possa estudar até de graça. Eu sou favorável a que ela estude de graça, eu sou favorável ao ensino público e gratuito para todo mundo, até porque é a partir da educação que a gente vai convocar os estudantes, os profissionais liberais, para assumir, quase como uma profissão de fé, e acabar com o analfabetismo no Brasil."
"Eu creio, assim como eu creio em Deus, que o Brasil poderia ser muito melhor. Tem tanta coisa que pode ser feita, tem tanta coisa para acontecer, para poder se cumprir a profecia de que neste País não vai ter mais analfabeto, de que neste País nenhum criança vai ficar fora da escola, de que neste País ninguém vai deixar de fazer a universidade porque não tem dinheiro. É uma coisa que eu acredito, dentro da minha alma, e que eu vou fazer."
"Eu acho que houve um avanço na educação, mas aquém daquilo que nós precisamos. O ensino ainda é de péssima qualidade. É importante lembrar, o Serra não diz isso agora, que o (remédio) genérico é projeto de um deputado do PT, o Eduardo Jorge. É importante dizer que grande parte das coisas que o Serra colocou em prática na Saúde é em função da quantidade de petistas que contribuiu para que ele fizesse isso."
"No Brasil, nós precisamos parar com essa pequenez, de uma pessoa estar fazendo uma coisa que você entenda que está dando certo mas pára porque a pessoa é de um outro partido político. Eu acho que tudo, independentemente do partido que seja, seja do PTB, do PFL, se alguém estiver fazendo uma coisa e essa coisa for boa para a sociedade, o que precisamos na verdade é ajudar para que tudo continue dando certo. O povo não pode pagar o pato pelas divergências que eu possa ter com o Serra, ou vice-versa. Então, em todas aquelas experiências bem sucedidas, você pode ter certeza de que nossa responsabilidade nos obrigará a dar continuidade, aperfeiçoar, melhorar, e fazer aquilo que não foi feito. Na área da Saúde, há uma coisa que norteia a minha cabeça há muitos anos: fica muito mais barato a gente evitar que as pessoas fiquem doentes, do que curá-las depois que elas fiquem doentes. É preciso mais saneamento, a melhoria da qualidade dos alimentos..."
"O custo-benefício (com a privatização das teles) não foi tão grande como se imaginava. Obviamente houve uma melhora, há mais concorrência (no setor) e a gente pode melhorar. Mas você mesmo já está ouvindo as telefônicas dizendo por aí que a situação não está boa, porque as pessoas estão até quase que ganhando telefones de graça, mas não estão podendo pagar as contas. A privatização não resolveu na Argentina, não resolveu na Rússia, não resolveu em nenhum país."
"O Estado precisa ter, em algumas empresas públicas, um instrumento de negociação muito importante. Na hora que você abre mão disso, você fica fragilizado, sem poder de negociação. Nós temos pouco para discutir agora (em termos de privatizações). Vamos fazer parcerias. Os empresários brasileiros e do mundo inteiro que quiserem contribuir para a construção de novas hidrelétricas, de termelétricas, para investir na energia eólica, para investir na energia solar, estão sendo convidados desde já. Nem ganhei as eleições e já os estou convidando. Vamos fazer parcerias."
"É importante que a gente tenha em conta o seguinte: na minha casa eu não gasto mais do que eu ganho. Se eu quero comprar alguma coisa extra, gastar um pouco mais, aquilo é pensado sobre as minhas condições de pagamento. O Estado precisa, efetivamente, saber quanto arrecada, e não gastar mais do que arrecada. Ele tem uma certa capacidade de endividamento, pode até gastar, mas isso tem que ser pensado de forma meticulosa até que tenha algum retorno, senão é dinheiro jogado fora. Mas eu estou convencido de uma coisa: só pelo fato de nós ganharmos as eleições, essa alternância de poder por si só vai aumentar a arrecadação em 20%, por causa da grande sonegação que há no País."
"Eu fiquei horrorizado quando o secretário da Receita Federal, num debate na Câmara dos Deputados, disse que, a cada um real arrecadado, um real era sonegado. Se isso é verdade, significa que nós temos uma base grande de arrecadação. Por isso é que nós estamos propondo uma política tributária mais eficaz. Você tem que arrecadar bem para poder fazer os investimentos necessários, você tem que cobrar de quem tem mais, e não de quem tem menos. Nós que recebemos o salário por contracheque é que pagamos a conta de muitos setores que não tem que prestar contas. Nós vamos desonerar toda a produção, todo o investimento no setor produtivo, acabar com o PIS, Cofins e CPMF, desonerar as exportações, tributar as grandes fortunas e heranças, e tentar diminuir o impacto do imposto (de renda) na classe média e classe média baixa, que somos nós. Isso feito, você poderia arrecadar muito mais."
"Nós precisamos fazer o povo gostar de si mesmo, é fazer o povo acreditar no Brasil. E ele só vai fazer isso se perceber que os dirigentes estão fazendo isso. São pelos exemplos que os dirigentes podem mover a sociedade brasileira a acreditar nela própria, como a grande gestora das transformações que o Brasil precisa."
"Nós sabemos da dimensão do problema (a renegociação da dívida pública), sabemos dos envolvidos no problema. E, obviamente, que o PT não vai deixar de pagar (honrar) os contratos e compromissos que o Brasil tem. Não pode (romper contratos), porque seria irresponsabilidade. O que nós queremos, na verdade, é estabelecer um padrão de novas negociações. Haverá momentos em que nós vamos sentar na mesa para negociar. E nessa negociação nós vamos tentar discutir coisas que possam trazer para o Estado um pouco mais de fôlego para o investimento."
"Eu tenho tido muita conversa com banqueiros. E eles perguntam exatamente isso: se nós vamos mexer nos contratos, se nós vamos deixar de pagar. E eu tenho dito a eles que seria irresponsabilidade nossa deixar de pagar. Nós não estamos em época de guerra, nós estamos em época de mostrar que é possível conversar, fazer acordo, estabelecer dívidas de mais longo prazo. Não é possível continuar do jeito que está, sem crescer a economia, que está atrofiada. O crescimento da economia sequer acompanha o crescimento demográfico, que já caiu muito mas ainda assim é maior que o crescimento (econômico)."
"Nós somos uma economia capitalista onde o custo do dinheiro é proibitivo para as pessoas. Precisamos facilitar o dinheiro para quem quer investir. A gente não pode ser inconsciente, chegar lá e dizer ´bom, os juros estão a 18,25%, e eu vou fazer eles descerem para 12%´. Você não pode fazer isso. Mas você pode ter, primeiro, vontade política para fazer aumentar as exportações e ter mais divisas para inclusive começar a reduzir os juros neste País, chegar a padrões que tornem o nosso empresariado e a nossa sociedade competitivos."
"Eu estive na China no ano passado, e a primeira pergunta que fiz ao governo chinês foi essa: como é que vocês controlam a remessa de lucros? ´Eu não controlo. O empresário vem aqui, tem o investimento que ele faz, tem regras, tem os impostos que tem de pagar, cumpriu com a regra ele faz o que quiser". Então, se nós tivermos regras claras com os investidores estrangeiros, nós não precisamos ficar imaginando que vamos colocar um supersônico para vigiar o lucro deles. Que eles cumpram as regras e já nos satisfaz. Eu acho que o Brasil é pouco ousado na sua relação comercial, é pouco competitivo."
Melchíades Cunha Júnior