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Ibama: interdisciplinaridade ou esculhambação?

Concurso público pioneiro estimula a ilegalidade no principal órgão ambiental brasileiro

 

por Felipe A. P. L. Costa (*)

O prazo de inscrição para o tão aguardado concurso do IBAMA (Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e dos Recursos Naturais Renováveis) foi prorrogado por uma semana, tendo sido finalmente encerrado no último dia 12 de maio.

O que era para ser uma data especial, no entanto, corre o risco de entrar para a história como marco de uma grande empulhação.  Por quê?

Antes de mais nada, porque o concurso do IBAMA está estimulando uma ilegalidade, recrutando pessoal para o exercício de uma atividade (“analista ambiental”) que é própria de profissões devidamente regulamentadas e estabelecidas.  No item 2 (“Descrição sumária das atividades”) do edital, por exemplo, lemos que

“São atribuições dos ocupantes do cargo [de analista ambiental] os planejamentos ambiental, organizacional e estratégico afetos à execução das políticas nacionais de meio ambiente formuladas no âmbito da União, em especial as que se relacionem com as seguintes atividades: regulação, controle, fiscalização, licenciamento e auditoria ambiental; monitoramento ambiental; gestão, proteção e controle da qualidade ambiental; ordenamento dos recursos florestais e pesqueiros; conservação dos ecossistemas e das espécies neles inseridas, incluindo seu manejo e sua proteção; estímulo e difusão de tecnologias, de informação e de educação ambientais” [1].

Está um pouco empolado, mas o parágrafo anterior se refere a coisas como manejo de populações naturais em unidades de conservação; tráfico de animais; ocupação de “áreas de preservação permanente”; envenenamento de fontes naturais de água; contaminação genética por transgênicos etc.

Para equacionar e lidar adequadamente com cada um desses problemas, os órgãos públicos de gestão ambiental precisam contar com pessoal devidamente qualificado e bem treinado: biólogos, sanitaristas, químicos etc.  Não dá para improvisar.  Estranhamente, porém, o IBAMA não está exigindo que os candidatos sejam portadores de diplomas em determinados cursos de graduação; ao invés disso, para se inscrever, basta que os candidatos sejam portadores de diploma de qualquer curso de graduação -- nem é o caso de lembrar aqui que muitos diplomas emitidos no país, notadamente por faculdades e universidades particulares, tem credibilidade pouco superior a de uma folha de papel em branco.

Nesse sentido, os conselhos de classe dos profissionais mais diretamente envolvidos (biólogos, além de agrônomos, engenheiros florestais, geógrafos, geólogos, químicos e sanitaristas) deveriam descruzar os braços [2] e tomar as providências judiciais cabíveis para suspender o mais rapidamente possível o referido concurso, pelo menos em seu formato atual.  Sob pena de o problema tornar-se ainda muito mais complicado.  Sim, porque gigantesco ele já é: embora sejam apenas 610 vagas, o número final de inscritos deverá ser contado em dezenas ou centenas [3] de milhares de candidatos!

Mas, por que chegamos a esse ponto?

Uma explicação oficiosa para toda essa barbeiragem é a de que “analista ambiental” não é exatamente uma profissão e que, portanto, “estaria tudo certo” em aceitar todo e qualquer tipo de candidato graduado.  Isso é absolutamente risível e só reforça a crença de que a falta de uma política ambiental ampla e consistente para o país não é propriamente uma “falha”, mas uma opção deliberada do governo federal.

Outro “argumento” que ouvi dizia que se o concurso fosse feito “de acordo com as regras” [4], não haveria tempo hábil para realizá-lo agora!  Pode parecer brincadeira, mas esse concurso está sendo “elaborado” há pelo menos um ano e meio.  E mais: no início de 2001, a EMBRAPA (Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária), abriu concurso público (tragicômico, é verdade, mas por outros motivos), exigindo que os candidatos fossem portadores de diploma de graduação em determinados cursos.

Se a EMBRAPA abriu um concurso sob condições restritivas (na verdade, os candidatos ainda precisavam ter um diploma de mestrado), porque no IBAMA impera tamanha esculhambação?  Sim, porque é disso que se trata: esculhambação, ainda que sob uma eventual e fantasiosa capa de "interdisciplinaridade" [5].

(*) Biólogo.  Esse artigo, sob o título “Interdisciplinaridade ou esculhambação?”, apareceu primeiro no Jornal da Ciência e-mail, boletim eletrônico diário da SBPC, No. 2030, de 10/05/2002 <http://200.177.98.79/jcemail/index2.jsp?id=103>.

 

Notas

 [1] Extraído de <http://www2.ibama.gov.br/concurso/edital.htm>.

 [2] Alguns conselhos de classe divulgaram o concurso do IBAMA simplesmente como mais uma “oportunidade de emprego” para seus afiliados.

 [3] Até onde sei, o número total de candidatos ainda não foi oficialmente divulgado; fala-se, extra-oficialmente, em bem mais de meio milhão de brasileiros inscritos.  Desconheço números tão elevados na história do serviço público do país.

 [4] Obedecer as regras, ao que parece, é coisa para funcionários de escalões inferiores.  Ver, por exemplo, matéria “Carta expõe Ibama ao ridículo” <http://www.estadao.com.br/ciencia/noticias/2002/mai/03/112.htm>, publicada no início do mês pela Agência Estado.

 [5] “Interdisciplinaridade” é uma palavra mágica; ela serve, por exemplo, para explicar porque os “sócioambientalistas” (arquitetos, economistas, jornalistas, pedagogos, psicólogos, sociólogos etc.), que pela sua formação pouco ou nada sabem sobre o funcionamento de ecossistemas tropicais, estão cada vez mais ocupando cargos decisórios dentro de órgãos (federais, estaduais e municipais) de gestão ambiental.

 

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