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O que fazer com a seca?

Luiz Inácio Lula da Silva

Muita coisa precisa mudar no Brasil para o nosso país dar certo em benefício do povo. Uma delas é centenária e vergonhosa: a questão da seca no Nordeste. Outro dia respondi com uma pergunta a uma repórter que me questionava sobre esse assunto: você já ouviu falar do Canadá combatendo a neve? O que o Canadá faz é desenvolver políticas públicas que permitam a convivência da população com a neve. É o que temos de fazer em relação à seca. O Brasil tem condições materiais e humanas para evitar que milhões de brasileiros sofram periodicamente em função desse fenômeno natural.

Mas não agindo do modo como esse governo tratou a questão. Tal qual o apagão, a situação atual em relação à seca se deve à falta de planejamento e de investimentos para enfrentar problemas mais do que previsíveis. Culpar São Pedro é tentar tapar o sol com a peneira.

Todo mundo sabe que poucos fenômenos naturais são tão esperados como as secas periódicas no Nordeste. É evidente que faltou planejamento ao governo para enfrentar o problema. Já em 1997, a União estava obrigada por lei a formular o Plano Nacional de Recursos Hídricos. Todos se lembram da grave seca do ano seguinte. O Plano, contudo, só saiu um ano depois – e nunca foi posto em prática. Agora, o governo diz que se trata de um plano incompleto, que deverá ser concluído somente no final deste ano.

E os investimentos? Até o início deste mês, apenas 2% - é preciso repetir, dois por cento – dos recursos previstos no Orçamento Federal para obras contra as conseqüências da seca tinham sido liberados pelo governo. E o presidente - governando há mais de seis anos - tem coragem de falar pela TV que o Brasil está nessa situação por falta de chuva.

Dados preliminares levantados pelo Projeto Fome Zero do Instituto Cidadania dão conta de que há no Nordeste Rural um contingente de 1,8 milhão de famílias que vivem abaixo da linha da miséria. Essas famílias não têm renda suficiente para comprar os alimentos necessários à sua sobrevivência. É evidente que, com a seca, esse número já é hoje muito mais alto. Estamos falando, portanto, de mais de 10 milhões de pessoas que simplesmente não sabem o que vão comer no dia seguinte.

Os coronéis da política nordestina há séculos utilizam a seca como indústria para o seu próprio enriquecimento. E a população pobre da região é obrigada a se limitar a culturas de sobrevivência, sem contar com nenhum apoio. É preciso criar condições para que ela garanta o auto-consumo e melhore a sua qualidade de vida, tendo acesso pelo menos ao mercado local. O governo tem de dar apoio, facilitando a formação de cooperativas, garantindo assistência técnica, crédito e seguro agrícola.

A chamada demanda institucional local pode ser muito importante para essa população, permitindo o início de uma produção mercantil mais organizada e eficiente. Como, por exemplo, fornecimento de alimentos para a merenda escolar, bolsa escola, hospitais e outros programas governamentais que se abastecem normalmente fora da região.

Quando o problema é deixado ao Deus dará, como agora, não há como minimizá-lo a não ser com medidas emergenciais. É assistencialismo, sim, mas o governo tem a obrigação de distribuir cestas de alimentos e prover água em caminhões-pipa para toda essa população. Essas ações, contudo, não devem fazer, como sempre tem acontecido, com que se perca uma visão de mudança nas estruturas de produção para solucionar o problema de uma vez por todas a médio prazo.

Tenho dito que o problema da fome no Nordeste não é de seca, é de cerca. A grande propriedade, o latifúndio tem o privilégio dos investimentos, da irrigação, de tudo. A pequena e média propriedade rural fica na marginalidade. O Brasil precisa resolver a questão da terra, fazer de fato a Reforma Agrária e criar condições efetivas para que milhões de pequenos e médios agricultores possam produzir e garantir vida digna para suas famílias. Mas, para isso, é preciso um governo verdadeiramente comprometido com o nosso povo e com o desenvolvimento do nosso país.

Luis Inacio Lula da Silva é presidente de honra do PT e coordenador do Instituto da Cidadania. Texto publicado pelo site do Partido dos Trabalhadores em 03/06/2001.

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