Tudo acaba em britadeira em NY
Não, não é brincadeira, mas é britadeira. Às 18h em ponto, um caminhão estacionou diante do número 1601 da Broadway (o prédio é da American Management Association International) e, em questão de segundos, estavam abrindo um enorme buraco na esquina da Rua 49, em frente ao imponente prédio da Morgan Stanley, onde um grupo de brasileiros fazia uma humilde (porem séria) manifestação contra a política adotada por esse banco de investimentos, frente à crescente popularidade de Lula.
Eu estava no meio de uma conversa sobre o evento, cujo mentor é um simpaticíssimo e muito alerta brasileiro de nome Paulo Nunes Ueno, quando as britadeiras começavam a ofuscar o som do megafone dos brasileiros. Sustentados por um sambinha (um surdo e um repique) o slogan dos manifestantes, ''Morgan Stanley, tire as mãos de nossas urnas'', Paulo e o resto dos manifestantes lutavam pra serem ouvidos. Curioso, fui checar de quem eram as britadeiras. J.C., que se recusou a dar o nome, disse que não era da Con Edison ou da Verizon (o equivalente a Light e a Telerj daqui), e disse que tinha ordens de vir as 17h mas só conseguiu driblar o transito do Holland Tunnel uma hora depois.
''E quem mandou vocês?'', indaguei. ''Não tenho certeza'' dizia J.C. ''Mas o que vocês vieram consertar? ''Também não sei. Nossa firma é contratada pra abrir buracos. Só isso.'' Mera coincidência ou um truque infantil da Morgan Stanley pra abafar a manifestação pró PT em Nova York? Mistérios da vida politica.
Uma brasileira que não quis se identificar (com medo de represálias) e que trabalha no banco desceu e veio discutir com Paulo Ueno. ''Um Brasil sem fome é o melhor investimento que vocês podem ter'' dizia ela. A brasileira dizia que isso não servia aos investidores do banco que queriam ver os dólares verdes em suas contas. Ralph Claber, um velhinho barbudo simpático, ajudava a distribuir panfletos amarelos cujo titulo é ''Quem escolhe o presidente do Brasil?'', e dizia para todos que queriam ouvir (num bom sotaque novaiorquino) ''Lula for president, Lula for president''. Perguntei para alguns dos poucos curiosos que ali paravam e resistiam ao insuportável barulho das britadeiras. Bruce Branson, um jovem businessman, laptop a bordo e tudo, estava de olho grudado na demonstração. ''Sabe quem é Lula?'', perguntei. ''Sim li nos jornais que ele é uma espécie de Lech Walesa do Brasil''. Bem respondido. ''Você se importa com o Brasil e seu futuro?'', eu disse. ''Claro que me importo. Acho que depois de 11 de setembro aprendemos a olhar em volta com mais clareza. Me perdoe por não saber muito sobre o seu país, mas tenho certeza de que o poder corporativo não pode vencer o poder do povo'', concluiu. Até às 18h30, quando fui embora, não havia ocorrido nenhum incidente, fora a barulheira orquestrada pelo banco. ''Só quero que os brasileiros saibam que tem gente aqui em Nova York e no resto do mundo lutando pela liberdade do Brasil'' concluia Ueno, sorrindo.
Artigo publicado pelo Jornal do Brasil no dia 11.05.2002 por Gerald Thomas.