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Exportar ou morrer

João Sayad


Meus pais falavam algumas palavras em árabe, na mesa de jantar, sobre as coisas que as crianças ou a empregada não pudessem ouvir - que a comida estava malfeita, que o pai não deveria insistir para a filha comer, que a mãe não deveria deixar o filho dormir na casa do amigo e assim por diante. Conversa de adultos não é para crianças. Conversa entre homens não pode ser ouvida por mulheres. Os homens nem imaginam a conversa das mulheres.

Por isso existem portas, paredes, quartos e salas. Por isso qualquer revelação dos diálogos telefônicos é um escândalo. Em cada lugar falamos uma língua diferente, adequada a cada tipo de ouvinte. Somos todos poliglotas.

O presidente afirmou que devemos ''exportar ou morrer''. Falou a coisa certa para a platéia certa de empresários brasileiros na posse do novo ministro de Desenvolvimento. As fotos dos jornais mostraram rostos macambúzios, entediados com o discurso. Como se eles soubessem que o discurso estava sendo feito especialmente para eles, mas que existiam outra língua e outro discurso que não combinava com aquele.

Por que deveríamos exportar se existem carências tão grandes no mercado nacional - faltam casas, ruas, estradas, televisões, roupas, alimentos, automóveis? Todos os indicadores de bens duráveis per capita (automóveis per capita, geladeiras per capita etc) são muito baixos no Brasil. Os investidores estrangeiros se estabelecem aqui pensando em servir este mercado nacional mal servido. Então, por que exportar? Exportar é a solução porque o mercado nacional, carente de quase tudo, também não tem renda e não é, de fato, mercado. São uma centena de milhões de brasileiros cujo consumo anual não passa de algumas peças de roupa, sandálias havaianas, vale transporte e aluguéis. Exportar seria solução, nesse caso, se os investimentos em exportação pudessem produzir para mercados mais ricos de outros países e ao mesmo tempo empregassem os patrícios desempregados que, então, com emprego e renda, poderiam se transformar em mercado nacional.

Nesse caso, exportar é solução se as importações forem menores do que as exportações, ou seja, se a demanda e os empregos criados pelas exportações não forem compensados pela redução de demanda que se destina aos mercados internacionais.

O discurso correto, que não pode ser dito oficialmente ou em público, é que precisamos exportar mais do que importamos. Seríamos chamados de protecionistas ou até xenófobos pelos compatriotas.

Neoliberais argumentam que um país como o Brasil poupa pouco e portanto precisa da poupança internacional. Ou seja, precisa importar mais do que exporta, o oposto do que estou afirmando. Não é verdade. Primeiro, porque um país com desemprego tão alto não precisa poupar. Segundo, porque Deus é justo e não permitiria que um país desgraçado, com tantos pobres e tão poucos ricos, seja flagelado por outra desgraça, isto é, poupança média baixa. Países de renda desigual poupam muito. Em terceiro lugar, ainda que a poupança externa seja bem-vinda, é preciso convencer os investidores estrangeiros a continuar a financiar importações maiores do que exportações e mais os juros das dívidas internacionais. Se tiverem boa vontade infinita, como os ingleses e outros europeus tiveram com os Estados Unidos no século passado, então basta exportar mais e importar mais ainda.

A crise do Sudeste Asiático, da Rússia, do México, da Argentina e do Brasil não demonstra confiança ilimitada dos estrangeiros em país algum. Por isso, precisamos exportar mais do que importamos. Do contrário, os estrangeiros perdem confiança, o dólar sobe, e a inflação volta ou o Brasil não consegue pagar seus compromissos em moeda estrangeira.

Finalmente, é preciso calcular quanto custa a poupança externa em termos de juros e instabilidade. Talvez não valha a pena contar com essa poupança tão cara e tão desestabilizadora. O discurso do presidente na posse do ministro do Desenvolvimento é absolutamente franco e pode ser repetido para qualquer platéia, de empresários ou banqueiros, nacionais ou estrangeiros. O ar macambúzio dos empresários na platéia não deriva da dubiedade do discurso do presidente. Não basta ao Brasil exportar. Precisamos exportar mais do que importamos. E isso o presidente ainda não falou.

* João Sayad, economista, é secretário de Finanças e Desenvolvimento Econômico da Prefeitura de São Paulo. Artigo Publicado pelo Jornal do Brasil no dia 29/08/2001.

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